HIERARQUIA DOS ANJOS
Muito do que conhecemos atualmente, sobre os anjos, deve-se a uma disciplina que os estuda, denominada angelologia.
Seja como for, existem várias formas de os interpretar, de acordo com a visão teológica ou espiritual. Certo é que o termo anjo provém do latim angelus, ou mensageiro divino e que teve em Dionísio (século VI) um dos seus principais estudiosos (a par de Eusébio de Cesaréia ou Ambrósio de Milão).
Igualmente pertence a Dionísio (em De coelesti hierarchia) a hierarquia mais comum dos anjos, a saber:
1 – Serafins: Tal como em todas as hierarquias de cariz descendente, no topo situa-se sempre o mais importante da escala. Os serafins, que são os mais velhos (o que representa, à partida, experiência e sabedoria, acarretando a ponderação e o bom senso), são os mais próximos de Deus. Têm uma ligação privilegiada com o ser supremo.
O seu príncipe é Metatron (rei dos anjos, em hebraico) e os seus coadjuvantes são em número de oito, entre eles Elemiah, Lelahel e Cahethel. A sua principal ligação é mental, tendo uma relação com os humanos que se baseia na sinceridade, na franqueza e em todos os sentimentos de enfrentar as situações mais adversas de uma forma pacífica.
Na realidade, tais capacidades advem de um conhecimento alcançado com base na experiência, tornando-os portadores do aspecto candido da figura tradicional de um ancião, que o futuro transformou em personalidades ficcionadas e não-ficcionadas como o Pai Natal ou o sábio da aldeia. O poder principal detido por Metatron é governar as forças criacionais ao dispor do ser humano.
O termos serafins provém do hebraico seraph, que significa alguém que se deixa consumir, dando tudo de si em prol de outrem.
2 – Querubins: São instantaneamente ligados às crianças pois são os “bebês” da hierarquia. Figuram muitas vezes nas campas de crianças, velando pelo descanso eterno. Guardam as mensagens divinas e aparecem com frequência na Bíblia das Escrituras Sagradas, particularmente na misteriosa Arca da Aliança, que possuía dois querubins incrustados.
Para além dos oito genios que constituem a ordem, tal como Haziel ou Hariel, tem como príncipe Raziel (ou, traduzindo diretamente, segredo dos deuses), que mitologicamente se localiza no campo das idéias puras. Não deixa de ser natural compreender esta questão da pureza, dado que são os bebês o ser humano mais puro, ainda limpo de tudo o que rodeia a Humanidade. Provavelmente, os querubins passam por ser a representação visual angelical mais bem aceite e acarinhada por todos.
3 – Tronos: O seu príncipe Tsaphkiel, ou Auriel, domina um octogono de figuras que inclui Levviah e Melahel. Compõem-se de seres angelicais conotados com as artes e a sua representação era de jovens belos tocando algum instrumento, como a harpa. Possuem a qualidade de comunicar com os anjos das hierarquias inferiores igualmente conhecidos como sedes dei, ou fonte de conhecimento de Deus.
Esta ligação à cultura é apanágio dos tronos, que procuravam espalhar pelo mundo um são convívio entre os povos, através de uma ligação supra-nacional ou supra-religiosa. A procura do talento é a sua máxima ocupação. Talvez a sua juventude os leve a ser os mais idealistas entre todos os anjos.
B - Segunda Hierarquia
1 – Dominações: Responsáveis diretos por tudo o que sucede no universo, os seres angelicais desta segunda hierarquia são possuidores do conhecimento da eterna sabedoria. No caso, a primeira camada hierárquica são as dominações, da alta nobreza celestial. Todos os demais da cadeia lhe são submissos.
Paralelamente estão sempre predispostos a sanar conflitos. O seu príncipe chama-se Tsadkiel, ou “fogo de Deus” e, entre o conjunto das dominações, contam-se igualmente Reyel, Omael e Lecabel. O seu domínio sobre os que estão abaixo de si surge do facto de serem detentores de algo que, felizmente, é o bem mais valioso da Humanidade – o conhecimento, sendo por isso enviados por Deus nas actuações de maior relevo e onde o saber é fundamental.
2 - Virtudes: Em segundo plano, na hierarquia seguinte da cadeia angelical, as virtudes, têm como príncipe Raphael. Este nome, adicionado à própria denominação dos anjos, conota-o com o poder de curar e é a estas entidades que se costuma apelar quando a enfermidade afecta o ser humano, como recurso.
Mikael ou Asaliah coadjuvam o príncipe no cumprimento desta função. Também por isso, a angelologia os liga, em termos de análise a nomes e datas de nascimento, com profissões como a enfermagem (no sentido de cura física) e sacerdotes (a chamada cura espiritual). Raphael, com o seu bastão, símbolo de comando, zela ainda pelo casamento.
3 – Potências: Apesar de, algumas vezes, existir alguma alternância, entre estudiosos, relativamente à posição de virtudes e potências, optámos pela listagem do século VI, de Dionísio, estudioso da teologia e do fenómeno de seres de cariz angelical. Camael, o seu príncipe, representa um auxílio directo de Deus, ao jeito de braço-direito do ser superior.
Menadiel e Aniel constituem alguns dos seus ajudantes (convém voltarmos a frisar que são sempre em número de oito os anjos, que a somar ao príncipe, constituem cada ramo da hierarquia). São, igualmente, considerados como os zeladores dos animais e respectiva procriação, pelo que a sua função e intervenção estará diretamente ligada ao episódio da Arca de Noé, relatado na Bíblia, e na fundamental proteção aos animais (levando um casal de cada espécie) possibilitando o prosseguimento da vida animal na terra após o grande dilúvio divino.
C - Terceira Hierarquia
1 – Principados: É nesta terceira faixa da cadeia hierárquica que se incluem os seres angelicais mais próximos dos seres humanos, isto é, aqueles cuja função é a de comunicar de forma direta as ordens de uma entidade superior. Esta proximidade leva-nos, naturalmente, a uma maior familiaridade e os estudiosos da angelologia referem que a função deste trio representante da terceira hierarquia consiste em, entre outras facções, avisar ou castigar, por ordem divina e não por opção própria.
No que diz respeito a esta secção em particular, ou seja os principados, têm como príncipe Haniel, invocado contra as forças do mal como o próprio nome indica, atua em nome da graça do próprio Deus e as mezinhas caseiras, de cariz popular, invocam-no para resolver os casos no campo do amor, um tema sempre em voga. Mas, tal como o seu próprio nome indica, só aparecem junto de figuras proeminentes da sociedade terrestre, mormente líderes da realeza, pois a sua majestade intrínseca a isso obriga. Acompanham Haniel, por exemplo, Daniel e Navael.
2 – Arcanjos: O seu príncipe Mikael é invocado sempre que uma protecção superior se faz necessária, sendo que é portador de uma força interior particularmente relevante. Iconograficamente é representado em batalha, envergando espada e escudo. A sua valentia levou-o a enfrentar o próprio diabo, por causa do corpo de Moisés, o transmissor dos mandamentos sagrados.
Reconhecido, no panorama ocidental, como Arcanjo Miguel é, sem sombra de dúvida, um das duas entidades angelicais mais reconhecidas e por quem os aflitos mais clamam em hora de necessidade. Acompanham-no, entre os arcanjos, Mitzrael e Emehiel. Os arcanjos, apesar do seu penúltimo lugar na hierarquia, são tidos em grande conta junto do coro dos sagrados anjos.
3 – Anjos: Como seria natural, até porque se trata de uma escala hierárquica em tom descendente, este é o patamar inferior, da escala angelical. Mas, ao contrário do que seria de supor, são aqueles mais reconhecidos, derivado ao fato de, teoricamente, estarem mais próximos de nós, seres humanos. Deste modo, o Anjo Gabriel é, junto com o Arcanjo Miguel, o mais facilmente reconhecível a nível popular, sendo também o príncipe da sua classe.
Na Bíblia Sagrada, é o importante mensageiro da Anunciação, que relata à Virgem Mãe que no seu ventre cresceria Jesus Cristo (como tivemos oportunidade de observar em citação anterior dentro deste capítulo), ao mesmo tempo que no Al-Corão aparece como o anjo protector do profeta Maomé. Ao lado do Anjo Gabriel surgem, entre outros, Manakael e Ayel.
Todo este conjunto de seres interagem, então, de forma harmoniosa, num plano elevado de cariz espiritual, acreditando-se que possam surgir, materialmente, em determinadas situações, de cariz muito específico. No mínimo, porém, esta organização hierárquica teve o condão de esclarecer certas confusões dos primórdios da Humanidade, obtendo a concordância das entidades máximas da teologia do início da era actual.
E, se Dionísio ficou conhecido como o principal organizador da hierarquia, muitos outros, antes e depois, têm-se dedicado ao estudo do fenómeno. Na verdade, os últimos anos do século XX (particularmente na década de 70/80) têm trazido à ribalta o fenómeno angeológico, mercê de um crescente mundo materialista. O ser humano sente-se impelido a virar-se para o misticismo. É um fato evidente, num mundo cada vez mais assustador e estranho, os anjos, enquanto seres de proteção, servem na perfeição o papel apaziguador, a nível mental, quanto tudo o mais parece falhar.
Nota. Texto originalmente publicado em “Os Grandes Mistérios da Humanidade” (Axcel Books Editora – Brasil)